Não vou mentir, eu já desconfiava. Na verdade, tinha quase certeza. Eu sentia olhares esquivos e tons de lamentação.
Que exagero! Vamos direto aos fatos, estou com um probleminha. De alguns meses pra cá, as pessoas passaram a me chamar de senhora. E agora é de verdade. Antes acontecia por educação, o pessoal titubeava e no fim das contas optava por um pronome de tratamento mais formal. Agora não. É com convicção: “Desculpe, senhora!” - “Não trabalhamos com este produto, senhora.” - “A senhora gostaria de um café?”. Olho para os lados e me pergunto - que senhora? Eu? Oi?
Passei rápida e instrospectivamente pelas cinco fases do sofrimento:
- Negação: Eu, senhora? Excesso de zelo da parte deles. Não vou corrigir para “você” ou “senhorita, por favor” - porque isso sim, é coisa de senhora. Me recuso.
- Raiva: Como pode uma coisa dessas? Eu ainda tenho uma espinha aqui, outra ali. Mal saí da adolescência. Até ontem eu era a moça. De onde tiraram esse senhora? Mas que falta de bom senso! Gentalha!
- Negociação: Tudo bem, eu até posso estar com uma carinha de adulta. Quem sabe? Então, posso encarar esse “senhora” como um elogio. É isso, foi um elogio. Em troca, devo agradecer.
- Depressão: “Retrato“, o poema da Cecília Meirelles - que outrora era lindo - agora não sai da minha mente doentia e velha, soando repetidamente como um mantra para senhoras recém descobertas: “Eu não tinha este rosto de hoje [...], Eu não dei por esta mudança, tão simples, tão certa, tão fácil: - Em que espelho ficou perdida a minha face?” Céus, que fase!
- Aceitação: Eu me entrego. É fato, sou senhora. Sou mulher. E não se nasce mulher: torna-se.
Devo dizer que a aceitação foi consolidada hoje, quando resolvi, depois de passar por outras 5 fases de sofrimento, arrumar meu guarda-roupa. Afinal, se não sou capaz de organizar um armário, como posso reestruturar minha vida? Mas isso é assunto para um próximo post. Vamos continuar com a conquista da aceitação.
Para arrumar as coisas, antes é preciso espaço. Espaço em um guarda-roupa feminino significa desprendimento de bens materiais fúteis (no caso, roupas, sapatos, bolsas e afins). É um exercício profundo de desapego. Quase torturante. Mas hoje foi diferente, teve um ar de despedida. Um adeus às roupas da moça - que eu insistia em manter para ... quem sabe um dia, quando eu for mais jovem. Ou seja, it’s over, baby! Vamos lá. Essa blusa aqui te deixa com a barriga fica de fora, aquela ali mostra demais as costas. Ah, eu gostava taaaanto dessa calça. Forget it, tem o cós muito baixo. Nada de pagar cofrinho a essa altura do campeonato. Senhora!
E foi assim. Peça por peça. É claro que não coloquei burcas no lugar das roupas que se foram, mas digamos que o estilo agora está mais adequado. E eu mais feliz. Não troco o que sou hoje, pela criança de antigamente, pela adolescente chatinha de tempos atrás e muito menos pela universitária descontraída de outro dia. Todas essas idades tiveram bons e maus momentos - aliás, como tudo nessa vida, e foram fundamentais para a construção do que sou hoje. A senhora, é realmente exagero, mas a mulher é verdadeira. Construída passo a passo.
Simples assim.
- Negação: Eu, senhora? Excesso de zelo da parte deles. Não vou corrigir para “você” ou “senhorita, por favor” - porque isso sim, é coisa de senhora. Me recuso.
- Raiva: Como pode uma coisa dessas? Eu ainda tenho uma espinha aqui, outra ali. Mal saí da adolescência. Até ontem eu era a moça. De onde tiraram esse senhora? Mas que falta de bom senso! Gentalha!
- Negociação: Tudo bem, eu até posso estar com uma carinha de adulta. Quem sabe? Então, posso encarar esse “senhora” como um elogio. É isso, foi um elogio. Em troca, devo agradecer.
- Depressão: “Retrato“, o poema da Cecília Meirelles - que outrora era lindo - agora não sai da minha mente doentia e velha, soando repetidamente como um mantra para senhoras recém descobertas: “Eu não tinha este rosto de hoje [...], Eu não dei por esta mudança, tão simples, tão certa, tão fácil: - Em que espelho ficou perdida a minha face?” Céus, que fase!
- Aceitação: Eu me entrego. É fato, sou senhora. Sou mulher. E não se nasce mulher: torna-se.
Devo dizer que a aceitação foi consolidada hoje, quando resolvi, depois de passar por outras 5 fases de sofrimento, arrumar meu guarda-roupa. Afinal, se não sou capaz de organizar um armário, como posso reestruturar minha vida? Mas isso é assunto para um próximo post. Vamos continuar com a conquista da aceitação.
Para arrumar as coisas, antes é preciso espaço. Espaço em um guarda-roupa feminino significa desprendimento de bens materiais fúteis (no caso, roupas, sapatos, bolsas e afins). É um exercício profundo de desapego. Quase torturante. Mas hoje foi diferente, teve um ar de despedida. Um adeus às roupas da moça - que eu insistia em manter para ... quem sabe um dia, quando eu for mais jovem. Ou seja, it’s over, baby! Vamos lá. Essa blusa aqui te deixa com a barriga fica de fora, aquela ali mostra demais as costas. Ah, eu gostava taaaanto dessa calça. Forget it, tem o cós muito baixo. Nada de pagar cofrinho a essa altura do campeonato. Senhora!
E foi assim. Peça por peça. É claro que não coloquei burcas no lugar das roupas que se foram, mas digamos que o estilo agora está mais adequado. E eu mais feliz. Não troco o que sou hoje, pela criança de antigamente, pela adolescente chatinha de tempos atrás e muito menos pela universitária descontraída de outro dia. Todas essas idades tiveram bons e maus momentos - aliás, como tudo nessa vida, e foram fundamentais para a construção do que sou hoje. A senhora, é realmente exagero, mas a mulher é verdadeira. Construída passo a passo.
Simples assim.

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