Quer conhecer o stress em uma pequena cidade do interior? Vá ao supermercado em um sábado à tarde, de preferência após o quinto dia útil do mês. Ou então tente alguma véspera. De Páscoa, dia das mães, dos pais, Natal ou Ano Novo. Tente também coincidir alguma dessas datas com as ofertas de comemoração do aniversário do mercado.
Eu consegui esta proeza. Foi sem querer, óbvio. Já disse aqui que tenho facilidade de me envolver em situações bizarras. E hoje meu auto-controle (céus, com ou sem hífen?) foi testado minuto a minuto. Primeiro, consegui a última vaga no estacionamento, aquela que ninguém quis, longe e no sol. Otimista que sou (mentira, sou nada), fiquei feliz em ao menos ter estacionado (relinchando e questionando as sandices desta vida).
Calmamente disputei um carrinho e, ao visualizar as fileiras de gôndolas, pude notar que estava em um imenso formigueiro desestruturado. Você já fez aquela brincadeira maléfica de jogar água nas formigas? E aí todas começaram a sair desordenadamente? Você mantinha um sorriso de escárnio nos lábios com a certeza de que lá dentro elas estavam em guerra. Hoje foi igualzinho. E eu era uma formiguinha.
Nos aglomerados é possível avaliar o nível de gentileza das pessoas. E infelizmente, eu o definiria como inexistente. Pessoas te atropelam, passam com o carrinho no seu pé (e isso dói muito), derrubam o vidro de azeitonas e fingem que foi um passarinho que passou voando atrapalhadamente por ali. Outras reviram as prateleiras em busca de ouro (só pode ser, pois o iogurte estava bem ali na frente) e deixam o problema para o próximo otário que passar por ali. Confesso, já fui assim, distraidamente. Hoje deixo tudo arrumadinho. Tão arrumadinho que precisei conter meu ímpeto de perguntar para minha colega consumidora se ela havia encontrado a prateleira daquele jeito. Por sorte, julguei que seria muita histeria da minha parte brigar com estranhos no supermercado. Não falei? Auto-controle (vou usar hífen e pronto) em dia.
É bonito notar a união das famílias. Não existe o hábito de eleger um pobre coitado para representar a todos nas compras e assim, o drama é coletivo. Pude ver famílias lindas, com quatro gerações reunidas. Famílias grandes, cheias de crianças que ficam abaixo do meu campo visual, correndo pra lá e pra cá, completamente perdidas dos seus progenitores. Como mártir, consegui evitar uns 5 atropelamentos infantis. Agradeçam ao anjo protetor das crianças hiperativas.
A fase final é passar pelo caixa. Dio Santo! Só dava para saber o começo das filas. O final organizava-se como podia. Engraçado como até em fila de supermercado são desenvolvidas lideranças naturais. Meu guia era um senhorzinho, que dava boas vindas aos novos sofredores e indicava a posição que deveriam assumir. Mudando de assunto rapidinho, fiquei tensa em um momento, quando ele me chamou de senhora. Oi? Senhora? Doeu. Só de raiva fiquei pensando que ele deveria ter ido para a fila de atendimento preferencial. Chumbo trocado.
Foi um longo momento de espera e o ócio abre brechas para a insanidade. Por muitas vezes me peguei inspecionando com o olhar o carrinho alheio, cheia de pensamentos neuróticos como - dez quilos de arroz? Família grande! - ou - Jesus, o que vão fazer com tanto amaciante de roupas? E aquela caixa de hambúrguer que deixaram para trás? Está descongelando. Será que a administração terá a decência de descartar o produto? Ou vai voltar pro freezer? Coitado de quem comprar. Em contrapartida, não pude deixar de notar olhares entediados para o meu carrinho: - Olha essa menina, só compra porcaria!
Festejei em silêncio quando consegui alcançar a saída e vi os raios de sol novamente. Depois fiquei sabendo que é possível fazer compras pelo telefone e eles entregam os itens em casa. Santa comodidade! Mas enquanto eu teimar em escolher meus próprios tomates, vou ter que encarar essa loucura toda. Evitando, logicamente, dias perturbados como o de hoje.
Que assim seja.

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