segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Chatô du galoche

Foi então que Deus criou o céu, o inferno e os chatos. Estes últimos, para nos dar uma vaga idéia do que seria o purgatório – a sala de espera para tortura dos réus celestiais. Quis Deus ser democrata e criá-los à sua imagem e semelhança, mas com o escopo mal definido, o projeto naufragou. Isso explica (mas não justifica) o fato dos chatos se consideram deuses. Onipotentes, oniscientes e onipresentes. A onipresença, admito de nariz torcido, é uma virtude dos chatos. Virtude para eles, martírio para nós – os legais.

De fato, os chatos estão por toda a parte e não é raro encontrar um mesmo chato em vários lugares, com diferença ínfima de tempo. Isso porque, chato que é chato mesmo, tem caráter persecutório. São praticamente psicóticos, sendo difícil de despistá-los.

Existem vários tipos de chatos. Os perguntativos, os discursivos, os narrativos e o “chato galochas” – que reúne os três últimos tipos. Os perguntativos são aqueles que interferem diretamente no seu pensamento, habitam o espaço mais íntimo do seu cérebro. Inibem seu direito de concentração e privacidade, fazendo perguntas tolas, em vasta quantidade e muitas vezes de cunho íntimo. O chato perguntativo no ambiente profissional caracteriza-se por aquele que te interrompe o tempo todo. Tem preguiça de pensar, então pergunta. A cada cinco segundos. Irritante ao extremo. Na vida pessoal, o perguntativo é facilmente reconhecido por fazer perguntas incabíveis, do tipo: quantas vezes você vai ao banheiro por dia? Quanto você ganha?

O chato discursivo é um narcisista intelectual. Pensa que tudo o que tem a dizer é de utilidade pública.  Cultua tanto a si próprio que gosta de ouvir as próprias reflexões. Não é estranho encontrá-lo falando sozinho. Corrigindo, ele não fala, palestra. Com público ou sem. Obviamente que, para exercer seu papel designado divinamente, ele precisa de público. Então, começa a falar assim que encontra uma vítima. Este tipo de chato subdivide-se em duas categorias: os inteligentes e os aporrinhadores. Os inteligentes são aqueles que gostam de discursar sobre política, religião e qualquer outro assunto cult. É do tipo que assiste a filmes chatos só para falar sobre eles. Poderia ser um tipo agradabilíssimo, não fosse sua insistência em não ouvir o outro interlocutor (ou seja, o coitado que o está ouvindo) e sua onisciência aguçada. Sabem tudo e você que fique quieto. Já os aporrinhadores, são os que não têm nada interessante a dizer, mas insistem. Falam sobre obviedades e são extremamente entediantes. E podem te abordar a qualquer instante. Aporrinhadores.

O narrativo é o típico contador de final de filmes. Conta qualquer história nos mí-ni-mos detalhes. E não adianta tentar impedi-lo com perguntas sagazes que o faria pular alguma parte da narrativa. Ele sempre retoma de onde parou. E o triste é que eles possuem memória de elefante, lembrando-se de tudo. São péssimos contadores de piadas. O tipo mais cruel é o contador de final de livros. Esse merecia ser afastado do convívio social.

Por fim, o chato de galochas. Ele reúne elementos dos outros três tipos. E passeia livremente por eles. Essa é a pior parte, porque você nunca sabe sob qual faceta será abordado. Quando se torna perguntativo, dá vontade de cavar um buraco no chão e sumir. Ou de arrebentá-lo. Ou mandá-lo praquele lugar. Mas quase sempre o chato de galochas tem algum tipo de poder sobre você (hierárquico, social ou financeiro), ficando difícil se desvencilhar dele. As coisas ficam mais simples quando se tornam discursivos ou narrativos, pois aí é só ouvi-lo enquanto se pensa em outra coisa. Só tenha cuidado para não cochilar.

Não quero desanimá-los, mas estamos cercados por todos eles.

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