segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Indulgência


Indulgência. Palavra difícil de entender. Provinda do latim, tem como significado “para ser gentil, porém durante séculos a teologia católica associou a indulgência com pecado. Era necessário obter indulgências e praticar boas obras, a fim de reparar todo mal cometido em terra para assim - finalmente - alcançar a vida eterna. Por conta dessa história toda, sempre considerei uma palavra fora de moda.

E agora ela ressurge, repaginada, mais simpática e pronta para ser usada. Os marqueteiros a adoram. Demorei muito tempo para entender o recado quando eles diziam que a nova onda era desenvolver produtos indulgentes. O que raios seria isso? Para entender é preciso buscar o sentido amplo da palavra e então esbarramos com uma busca natural pelo prazer e pela auto-satisfação. Nada mais é do ser gentil consigo mesmo. O grande “eu mereço”. A grosso modo e comercialmente falando, significa dê-me o supérfluo e abrirei mão do básico, ou seja, trocarei cinco balas por um bombom. Ou trocar aquele vinho trivial por um Moët & Chandon. Por que? Porque eu mereço. Afinal, o que você fez por você essa semana?

O que me fere é a falta de gentileza com a qual nos tratamos. Singularmente, como indivíduos. Vou deixar para outra hora a gentileza em sociedade. Falo agora do quanto nos privamos de cuidados, protelando nada mais do que a felicidade - ou os momentos felizes. Culturalmente, parece que para sermos gentis, precisamos antes nos fazer sofrer. Para poder comer aquela sobremesa deliciosa, temos antes ir à academia. Para tomar aquele vinho bom, só se for uma data especial. Paris, só depois de trabalhar o ano todo. Somente depois de todos os compromissos cumpridos à risca é que paramos e dizemos: Eu mereço! Trata-se de uma indulgência vazia, rica somente em bens materiais.

Nosso comprometimento todo é com o atendimento às exigências sociais. Trabalhar, produzir e cumprir protocolos exigidos por regras muitas vezes inatingíveis. Fica esquecido o flerte com a própria alma, o carinho para consigo mesmo. A atenção aos próprios sentimentos e dos que nos rodeiam. Afinal, é isso que merecemos todos os dias. É isso que levaremos desta vida. A memória dos que nos amaram e dos que amamos. Ninguém sai deste mundo levando uma garrafa de Moët & Chandon embaixo do braço.

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