Depois de anos vivendo neste mundo insano, já não é tudo que me espanta. Porém, hoje li mais uma daquelas notícias que me fazem perder a fé na humanidade. “Homem morre em frente a Pronto Socorro , no centro de São Paulo e corpo fica na rua por quase quatro horas” – dizia a manchete. E a reportagem continuava: “Poderia ter sido só uma fatalidade: um homem se sente mal, cai e morre subitamente no meio do passeio público. Não fosse pelo fato de o corpo ter ficado quase quatro horas no mesmo local, numa rua movimentada no centro de São Paulo, a 20 passos de uma unidade básica de saúde (UBS) e a 40 passos de um pronto-socorro municipal.” Ele tinha 48 anos, trabalhava próximo ao hospital, sentiu-se mal e procurou ajuda. A UBS mais próxima não o atendeu, pois só faziam atendimentos consultas com hora marcada, mas fizeram a gentileza de indicar o hospital mais próximo – a uma quadra dali. Resultado? Ele não conseguiu chegar. E o restante vocês já sabem, ficou por quatros horas ali, coberto com um plástico, esperando que dessem ao seu corpo vazio o tratamento digno que não recebeu em vida.
Hoje essa manchete ocupava praticamente o mesmo espaço que outra, dizendo que o solidéu do Papa Bento havia voado (e eu nem sabia que o raio do chapeuzinho papal tinha esse nome). Agora me digam qual a relevância dessa informação? Outra comparação importante é que a morte do polvo Paul (vidente de araque) ocupou ontem 5 vezes mais espaço do que a nota de hoje. Gente, um polvo! Governos lamentam a morte do polvo, celebridades comentam através do twitter. Cogita-se construir um monumento em homenagem ao polvo. Gente, de novo: um polvo!
Fico me perguntando por que as pessoas se ocupam com banalidades, enquanto relutam em enxergar os absurdos que acontecem ao seu redor. Existem inúmeras respostas. A primeira que penso: dói menos. Lógico, dói muito menos pensar na morte do polvo ao invés de olhar para alguém – e alguém igual a você - que morre na rua e não recebe ajuda. Nem em vida, nem na morte. Poderia ser você. Ou melhor, poderia ser seu pai. Ou um amigo. Como você se sentiria ao saber que uma pessoa querida faleceu e foi tratado como animal? Aliás, não como animal, mas como uma montanha de lixo que atrapalha o passeio público. Eu me contorceria de dor.
A segunda coisa é a falta de solidariedade e empatia para com o próximo. Seguindo o raciocínio de que poderia acontecer com qualquer um de nós, uma atitude minimamente sã seria importar-se com o fato e sei lá – buscar ajuda? Mas há coisas mais importantes para fazer na vida, não é? Afinal, não tenho nada a ver com aquele corpo no caminho (poxa, no meio do meu caminho!).
A parte que deixei para o final é que esta cena aconteceu em frente a uma escola e as crianças assistiram tudo das janelas das salas de aula. Vejam, é isso que estamos ensinando. Não importa o método de ensino e o que é dito pelos professores. Nossas atitudes ensinam mais. E nossas atitudes são vistas da janela.
Não tenho uma solução, mas me reservo o direito da indignação.
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