segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

E de repente 30



“A mulher de trinta anos pode fazer-se jovem, representar todos os papéis, até tornar-se mais bela com uma infelicidade. Entre ela e uma jovem há a incomensurável diferença entre o previsto e o imprevisto, a força e a fraqueza. Armada de um saber obtido quase sempre ao preço de infelicidades, a mulher de trinta anos ao entregar-se, parece dar mais do que ela mesma; ao passo que a jovem, ignorante e crédula, nada sabendo, nada pode comparar nem apreciar” (Trecho de “A mulher de 30 anos - Honoré de Balzac)


Enfim, tornei-me uma balzaquiana. Fiz trinta anos. 30 para ser mais impactante. Quando se fala em idade, números dizem mais que palavras. Nesse momento é inevitável fazer uma pausa para reflexão. E me lembro daquela menina que se perguntava: O que serei quando crescer?

Por isso é impossível não fazer uma parada no meio da estrada, reformular perguntas e buscar uma óptica diferente. Você não olha para trás como fazem os mais velhos e tão pouco olha para frente como fazem os muito jovens. Olha para os lados. É o mirante dos 30 anos.

Dê lá vê-se uma mulher no meio da estrada. Realizou ao menos metade das missões herdadas no berço: nascer, crescer, estudar, casar, procriar, trabalhar e morrer. Não necessariamente nesta ordem. A visão deste mirante é inicialmente assustadora, mas logo vem a plenitude da contemplação. Tem gosto de liberdade.

O adolescente vive numa gruta escura. Atormentado por todos os lados com mil exigências - estudar, escolher uma profissão, ler livros que não gosta. Praticar esportes, comer saudavelmente e sem ver um grande sentido nisso. Conforma-se semanalmente com uma diversão limitada, com filas imensas, em lugares escuros, músicas repetitivas e ensurdecedoras a ecoar por todos os cantos. Não que ele esteja errado, mas trata-se de um ambiente hostil para alguém com 30. Quando se é um jovem-adolescente sabe-se muito pouco sobre si, sobre sua essência. Eu não voltaria para essa fase nem sob tortura. Aos 30, um bom papo em um lugar agradável vale mais do que mil baladas.

Com 30 você sabe algumas coisas sobre a vida e tem uma leve noção do que acontecerá dali em diante. Por exemplo, você já sabe que não é um gênio da matemática, sabe não será a primeira bailarina da melhor compania de ballet (seja ela qual for). Não será uma revelação da música e muito menos uma campeã na ginástica olímpica. A ansiedade é minimizada pelas expectativas.

30 anos. Você está relativamente madura e releva muita coisa. Evita brigas que só desgastariam relações. Pondera. Há quem diga que nesta fase trocamos a paixão por ponderação. Sem grandes rompantes. Conseguimos pensar (pouco, mas pensamos) antes de agir. Obviamente, para toda regra há exceções. Sugiro fugir das exceções. Uma briga com uma mulher de 30 é muito mais difícil. Tente argumentar com ela e ouvirá um monólogo interminável. Ela é exigente. Persistente. Princípios enraizados.

Sensibilidade. Esta fica muito mais aguçada. Sabe aquele sexto sentido feminino? Funciona como nunca. Sabemos diferenciar com leveza aquelas pessoas com energia ruim e as afastamos à francesa. Com classe. Tem-se muito pouco tempo a perder e só queremos pessoas realmente grandes ao nosso lado. Grandes no sentido íntimo da palavra. Pessoas com espírito pleno, que nos completará, seja na amizade ou no amor.

Liberdade. Aos 30 você tem o poder de ir e vir sem dar grandes satisfações. Ouve as músicas que gosta, lê os livros que escolheu, viaja para onde tem vontade. Pratica esportes e alimenta-se bem porque quer ter qualidade de vida até os 90 anos.

Tenta diminuir os impactos físicos. Você sabe muito bem o estrago que uma semana longe da academia pode fazer seu corpo. E o quanto aquela semana de TPM regada à chocolates, doces e afins vai refletir diretamente no diâmetro do seu quadril. Mas entrega-se, pois pequenos momentos de prazer são impagáveis. Aprende na marra a respeitar as horas de sono, pois sabe o quão sofrível será o dia seguinte no trabalho, onde todos perguntarão porque você está parecendo um panda com tantas olheiras. O corpo precisa de cuidados e é difícil aceitá-los, pois até ontem você tinha um metabolismo de adolescente. É, muita coisa muda.

E olhando para frente, muita coisa está por vir. Constantes transformações. Muitos desejos a realizar. Viajar o mundo. Paris! Aprender a dançar lindamente, por diversão. Escrever as pequenas impressões sobre a vida. Aprender a fotografar, arte pela arte. Conhecer novas pessoas, com conteúdo. Ler todos os livros que você queria ler. Muitos deles enfileram-se na estante. Arriscar-se, pular de asa delta. Buscar desafios, correr a maratona de Nova York ou um novo emprego. Não há limites para a mulher de 30. E ela está cheia de coragem. Entende a brevidade da vida.

Um brinde à Mulher de Balzac!

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