domingo, 9 de janeiro de 2011

Com paixão

Você pode ser diretor de multinacional ou coletor de resíduos urbanos, se não colocar paixão no seu trabalho, será só mais um entre milhões.

Digo isso e me sinto hipócrita, pois no fundo sempre pensei que não existissem pessoas que conseguissem praticar a frase acima. É tão mais comum ver pessoas entendiadas em seus trabalhos.

Outro dia, enquanto eu estava passeando pelas prateleiras de uma livraria, um dos vendedores ofereceu ajuda. Lembrando que isso é raro neste tipo de comércio, pois normalmente os atendentes não são comissionados e estão sempre sobrecarregados de clientes pedindo informações. Tomada pela surpresa, acabei pedindo ajuda para encontrar um livro de gastronomia que estava procurando.

Não encontramos e eu estava prestes a continuar meu caminho, quando fui surpreendida novamente. Muito observador, o rapaz viu que eu estava com 4 exemplares de pocket books de um escritor em mãos e disse:
- Que legal que você gosta do “fulano”, é um ótimo escritor.
- Nossa, adoro!
- Então você também deve gostar do “ciclano”.
- Não, não sei. Nunca li nada dele.
.... Pausa ....
- (Com sorriso nos lábios) Posso procurar um livro dele pra vc?
- (Levemente confusa, meio que atordoada) Cla-claro...

E eis que ele saiu pela livraria em busca do meu exemplar. Não achou o que queria, disse que tinha um outro, mas que era um pouco maior. Ainda teve a delicadeza de dizer: "Mas o bom mesmo seria aquele outro, que é menorzinho. Porque vai que você não gosta, não é?". Ou seja, me desobrigou a levar o livro por educação.

E eu fui embora, prometendo ler algo sobre o “ciclano” e agradecendo a atenção. Não sei se a carência está afetando minhas faculdades mentais, mas quase tive um rompante de chamá-lo para um chop. Desconsiderei rapidamente, pois ele me pareceu muito jovem.

Brincadeiras à parte, eu realmente fiquei encantada com o atendimento. Pela raridade da qualidade oferecida, mas principalmente pelo entusiasmo com a qual o rapaz estava exercendo seu trabalho. Jovem, parecia estar no lugar certo, apaixonado pelos seus produtos (os livros) e querendo despertar nos clientes a mesma paixão que lhe saía pelos poros.

Que essa chama continue acesa!

Frase ou fase?

Na prisão do sofrimento,
Ao menos me foi concedido o benefício das lágrimas,
Que pouco a pouco limpam as feridas do meu coração.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Sinta o drama

Ontem seria meu grande dia! Depois de quase um mês de recesso, voltaria às aulas de fashion designer (ou corte e costura para os pobres de espírito). Estava empolgadíssima, parecendo criança quando ganha uma mochila nova. Doida para ir para a escola.

Como garota aplicada, comprei alguns materiais novos, arrumei meus desenhos. Organizei tudo. Ficou lindo! Minha professora morreria de orgulho de mim. Igual aos nerds que fazem tarefa extra de matemática nas férias. Minhas colegas de classe me odiariam, obviamente.

Mas sabem o que aconteceu? Não tive aula! E nem terei nos próximos...sei lá, 83 dias? Minha guru da moda precisa repousar. Não contei aqui anteriormente, mas minha professora está grávida. É um menino e nascerá no final de janeiro. Estamos todas muito felizes. E eu já estava preparada para uma pausa de 40 dias nas aulas. Venho me preparando há uns sete meses.  Entoava um mantra psicológico todos os dias, dizendo que ia passar rápido, que eu nem sentiria. Mas aconteceu antes do esperado.

E agora, pessoal? Eu aguento tudo nessa vida! Fico sem TV, sem coca-cola, sem chocolate. Fico até sem namorado (ah, vá?!). Mas como vou ficar sem minha professora predileta?

Estou desamparada! Me abraça?

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Adeus Ano Velho

Foi então que me perguntaram como havia sido 2010. A resposta que se espera para esse tipo de pergunta é: foi ótimo e espero que o ano que vem seja melhor ainda. Mesmo que ela venha acompanhada de um sorriso amarelo. Mas na hora senti meu rosto enrubescer, o coração disparou e meus pensamentos congelaram. Não é tão simples assim, mas não julgava justo dizer a verdade, sinto vergonha do egocentrismo exacerbado.

Veja, em 2010 mantive minha boa saúde. Não sou diabética, hipertensa, cardiopata e muito menos tabagista. Pratico esportes regularmente, me alimento bem. Bebo socialmente. Quer dizer, um pouco mais que socialmente. Coisas da juventude. Então continuando, tudo indica que viverei mais uns bons anos. Para azar ou sorte de vocês. Vai saber. Também não sofri nenhum acidente grave, portanto ainda tenho todos os membros do corpo funcionando em agradável sintonia. Não emagreci, mas também não engordei. Talvez tenha surgido uma ruguinha aqui, outra ali. Nada que um botox não resolva no futuro.

Minha família vai bem, obrigada. Não perdi ninguém e todos usufruem de boa saúde, apesar da idade estar chegando para alguns. Meu animal de estimação me ama cada dia mais, sempre serelepe, saltitante e muito – muito fofinha.

E eu tenho um emprego. Olha só! Nem sei o número de miseráveis e desempregados no país. Sei que estou fora desta estatística, o que me garante verba suficiente para as necessidades humanas e futilidades femininas. Também tenho um lar, muitos não tem.

Fiz algumas viagens, tive uns dias de férias. Enfim, fato consumado. 2010 foi melhor para mim do que para muitas outras pessoas e sei que devo ser muito grata. Mas não posso mentir para mim mesma. Não fui feliz. Não realizei grandes coisas, não encontrei meu rumo. Eu diria que foi um ano fora de foco. Um borrão. Apenas me arrastei no meio da fumaça, dia após dia. Sem visão, me senti esperando que alguém me pegasse pela mão e mostrasse o caminho. Não aconteceu.

Não foi em vão. Tudo tem seu tempo certo. Tempo de aprendizado e preparação. Que em 2011 eu retome as rédeas da minha vida. Sinto que estou pronta. Só não posso perder o foco.

Só depende de você

Cidade Feitiço

Foto de Evandro Rocha

Sobre constatação e Desapego

Não vou mentir, eu já desconfiava. Na verdade, tinha quase certeza. Eu sentia olhares esquivos e tons de lamentação.
Que exagero! Vamos direto aos fatos, estou com um probleminha. De alguns meses pra cá, as pessoas passaram a me chamar de senhora. E agora é de verdade. Antes acontecia por educação, o pessoal titubeava e no fim das contas optava por um pronome de tratamento mais formal. Agora não. É com convicção: “Desculpe, senhora!” - “Não trabalhamos com este produto, senhora.” - “A senhora gostaria de um café?”. Olho para os lados e me pergunto - que senhora? Eu? Oi?
Passei rápida e instrospectivamente pelas cinco fases do sofrimento:
- Negação: Eu, senhora? Excesso de zelo da parte deles. Não vou corrigir para “você” ou “senhorita, por favor” - porque isso sim, é coisa de senhora. Me recuso.
- Raiva: Como pode uma coisa dessas? Eu ainda tenho uma espinha aqui, outra ali. Mal saí da adolescência. Até ontem eu era a moça. De onde tiraram esse senhora? Mas que falta de bom senso! Gentalha!
- Negociação: Tudo bem, eu até posso estar com uma carinha de adulta. Quem sabe? Então, posso encarar esse “senhora” como um elogio. É isso, foi um elogio. Em troca, devo agradecer.

- Depressão: “Retrato“, o poema da Cecília Meirelles - que outrora era lindo - agora não sai da minha mente doentia e velha, soando repetidamente como um mantra para senhoras recém descobertas: “Eu não tinha este rosto de hoje [...], Eu não dei por esta mudança, tão simples, tão certa, tão fácil: - Em que espelho ficou perdida a minha face?” Céus, que fase!
- Aceitação: Eu me entrego. É fato, sou senhora. Sou mulher. E não se nasce mulher: torna-se.


Devo dizer que a aceitação foi consolidada hoje, quando resolvi, depois de passar por outras 5 fases de sofrimento, arrumar meu guarda-roupa. Afinal, se não sou capaz de organizar um armário, como posso reestruturar minha vida? Mas isso é assunto para um próximo post. Vamos continuar com a conquista da aceitação.

Para arrumar as coisas, antes é preciso espaço. Espaço em um guarda-roupa feminino significa desprendimento de bens materiais fúteis (no caso, roupas, sapatos, bolsas e afins). É um exercício profundo de desapego. Quase torturante. Mas hoje foi diferente, teve um ar de despedida. Um adeus às roupas da moça - que eu insistia em manter para ... quem sabe um dia, quando eu for mais jovem. Ou seja, it’s over, baby! Vamos lá. Essa blusa aqui te deixa com a barriga fica de fora, aquela ali mostra demais as costas. Ah, eu gostava taaaanto dessa calça. Forget it, tem o cós muito baixo. Nada de pagar cofrinho a essa altura do campeonato. Senhora!

E foi assim. Peça por peça. É claro que não coloquei burcas no lugar das roupas que se foram, mas digamos que o estilo agora está mais adequado. E eu mais feliz. Não troco o que sou hoje, pela criança de antigamente, pela adolescente chatinha de tempos atrás e muito menos pela universitária descontraída de outro dia. Todas essas idades tiveram bons e maus momentos - aliás, como tudo nessa vida, e foram fundamentais para a construção do que sou hoje. A senhora, é realmente exagero, mas a mulher é verdadeira. Construída passo a passo.

Simples assim.

Chatô du galoche

Foi então que Deus criou o céu, o inferno e os chatos. Estes últimos, para nos dar uma vaga idéia do que seria o purgatório – a sala de espera para tortura dos réus celestiais. Quis Deus ser democrata e criá-los à sua imagem e semelhança, mas com o escopo mal definido, o projeto naufragou. Isso explica (mas não justifica) o fato dos chatos se consideram deuses. Onipotentes, oniscientes e onipresentes. A onipresença, admito de nariz torcido, é uma virtude dos chatos. Virtude para eles, martírio para nós – os legais.

De fato, os chatos estão por toda a parte e não é raro encontrar um mesmo chato em vários lugares, com diferença ínfima de tempo. Isso porque, chato que é chato mesmo, tem caráter persecutório. São praticamente psicóticos, sendo difícil de despistá-los.

Existem vários tipos de chatos. Os perguntativos, os discursivos, os narrativos e o “chato galochas” – que reúne os três últimos tipos. Os perguntativos são aqueles que interferem diretamente no seu pensamento, habitam o espaço mais íntimo do seu cérebro. Inibem seu direito de concentração e privacidade, fazendo perguntas tolas, em vasta quantidade e muitas vezes de cunho íntimo. O chato perguntativo no ambiente profissional caracteriza-se por aquele que te interrompe o tempo todo. Tem preguiça de pensar, então pergunta. A cada cinco segundos. Irritante ao extremo. Na vida pessoal, o perguntativo é facilmente reconhecido por fazer perguntas incabíveis, do tipo: quantas vezes você vai ao banheiro por dia? Quanto você ganha?

O chato discursivo é um narcisista intelectual. Pensa que tudo o que tem a dizer é de utilidade pública.  Cultua tanto a si próprio que gosta de ouvir as próprias reflexões. Não é estranho encontrá-lo falando sozinho. Corrigindo, ele não fala, palestra. Com público ou sem. Obviamente que, para exercer seu papel designado divinamente, ele precisa de público. Então, começa a falar assim que encontra uma vítima. Este tipo de chato subdivide-se em duas categorias: os inteligentes e os aporrinhadores. Os inteligentes são aqueles que gostam de discursar sobre política, religião e qualquer outro assunto cult. É do tipo que assiste a filmes chatos só para falar sobre eles. Poderia ser um tipo agradabilíssimo, não fosse sua insistência em não ouvir o outro interlocutor (ou seja, o coitado que o está ouvindo) e sua onisciência aguçada. Sabem tudo e você que fique quieto. Já os aporrinhadores, são os que não têm nada interessante a dizer, mas insistem. Falam sobre obviedades e são extremamente entediantes. E podem te abordar a qualquer instante. Aporrinhadores.

O narrativo é o típico contador de final de filmes. Conta qualquer história nos mí-ni-mos detalhes. E não adianta tentar impedi-lo com perguntas sagazes que o faria pular alguma parte da narrativa. Ele sempre retoma de onde parou. E o triste é que eles possuem memória de elefante, lembrando-se de tudo. São péssimos contadores de piadas. O tipo mais cruel é o contador de final de livros. Esse merecia ser afastado do convívio social.

Por fim, o chato de galochas. Ele reúne elementos dos outros três tipos. E passeia livremente por eles. Essa é a pior parte, porque você nunca sabe sob qual faceta será abordado. Quando se torna perguntativo, dá vontade de cavar um buraco no chão e sumir. Ou de arrebentá-lo. Ou mandá-lo praquele lugar. Mas quase sempre o chato de galochas tem algum tipo de poder sobre você (hierárquico, social ou financeiro), ficando difícil se desvencilhar dele. As coisas ficam mais simples quando se tornam discursivos ou narrativos, pois aí é só ouvi-lo enquanto se pensa em outra coisa. Só tenha cuidado para não cochilar.

Não quero desanimá-los, mas estamos cercados por todos eles.

Lições aprendidas

Cumprimente as pessoas de forma amigável, mas desconfie dos homens no primeiro encontro. Principalmente se lhe trouxerem petiscos.
Ame com intusiasmo e comemore cada encontro como se fosse o último. Perca a noção do tempo.
Alegre-se em receber atenção e demonstre sua felicidade. Desarme-se.

Dê carinho a quem é carinhoso com você. Entregue-se.
Porém tenha cautela  com o que/ quem não conhece. Lembre-se que até uma formiga pode causar problemas.
Delimite seu território e só permita a entrada de quem é bem-vindo.
Mostre que uma boa rosnada vale mais do que uma mordida.
Seja amável com as crianças, mas imponha respeito. Puxar o rabo não vale.

Encare seus medos, mesmo que o inimigo seja uma borboleta. Não perca o perca de vista.
Seja determinada. Só pare de cavar quando encontrar o que procura.
Se te fizerem perguntas difíceis, balance as orelhas e olhe fixamente para o infinito. Tem funcionado com ela.
Brinque o quanto quiser, mas mude as regras do jogo sempre que achar necessário. Não devolva a bolinha.

Coma com prazer. Acorde cedo e aproveite o dia.
Deixe um espacinho para um cochilo. Delicie-se com a preguiça, mas alongue-se antes de se levantar.
Não recuse um bom passeio. Observe o mundo como se fosse a primeira vez. Sinta o perfume das flores e o cheiro da terra.
Olhe pela janela do carro e sinta a brisa. Encante-se.

Quando fizer algo de errado, assuma a culpa silenciosamente. Mas só depois de ser encontrada no seu esconderijo.
Não aceite broncas que não são suas. Mas quando for do seu interesse, seja obediente.

Seja fiel a quem ama. Isso inclui os amigos.
Quando alguém estiver triste, fique em silêncio, encoste-se gentilmente. Faça de sua presença um conforto.
Esqueça as mágoas.

E por fim, cultive somente as boas lembranças.

E o inferno é logo ali

Quer conhecer o stress em uma pequena cidade do interior? Vá ao supermercado em um sábado à tarde, de preferência após o quinto dia útil do mês. Ou então tente alguma véspera. De Páscoa, dia das mães, dos pais, Natal ou Ano Novo. Tente também coincidir alguma dessas datas com as ofertas de comemoração do aniversário do mercado.

Eu consegui esta proeza. Foi sem querer, óbvio. Já disse aqui que tenho facilidade de me envolver em situações bizarras. E hoje meu auto-controle (céus, com ou sem hífen?) foi testado minuto a minuto. Primeiro, consegui a última vaga no estacionamento, aquela que ninguém quis, longe e no sol. Otimista que sou (mentira, sou nada), fiquei feliz em ao menos ter estacionado (relinchando e questionando as sandices desta vida).

Calmamente disputei um carrinho e, ao visualizar as fileiras de gôndolas, pude notar que estava em um imenso formigueiro desestruturado. Você já fez aquela brincadeira maléfica de jogar água nas formigas? E aí todas começaram a sair desordenadamente? Você mantinha um sorriso de escárnio nos lábios com a certeza de que lá dentro elas estavam em guerra. Hoje foi igualzinho. E eu era uma formiguinha.

Nos aglomerados é possível avaliar o nível de gentileza das pessoas. E infelizmente, eu o definiria como inexistente. Pessoas te atropelam, passam com o carrinho no seu pé (e isso dói muito), derrubam o vidro de azeitonas e fingem que foi um passarinho que passou voando atrapalhadamente por ali. Outras reviram as prateleiras em busca de ouro (só pode ser, pois o iogurte estava bem ali na frente) e deixam o problema para o próximo otário que passar por ali. Confesso, já fui assim, distraidamente. Hoje deixo tudo arrumadinho. Tão arrumadinho que precisei conter meu ímpeto de perguntar para minha colega consumidora se ela havia encontrado a prateleira daquele jeito. Por sorte, julguei que seria muita histeria da minha parte brigar com estranhos no supermercado. Não falei? Auto-controle (vou usar hífen e pronto) em dia.

É bonito notar a união das famílias. Não existe o hábito de eleger um pobre coitado para representar a todos nas compras e assim, o drama é coletivo. Pude ver famílias lindas, com quatro gerações reunidas. Famílias grandes, cheias de crianças que ficam abaixo do meu campo visual, correndo pra lá e pra cá, completamente perdidas dos seus progenitores. Como mártir, consegui evitar uns 5 atropelamentos infantis. Agradeçam ao anjo protetor das crianças hiperativas.

A fase final é passar pelo caixa. Dio Santo! Só dava para saber o começo das filas. O final organizava-se como podia. Engraçado como até em fila de supermercado são desenvolvidas lideranças naturais. Meu guia era um senhorzinho, que dava boas vindas aos novos sofredores e indicava a posição que deveriam assumir. Mudando de assunto rapidinho, fiquei tensa em um momento, quando ele me chamou de senhora. Oi? Senhora? Doeu. Só de raiva fiquei pensando que ele deveria ter ido para a fila de atendimento preferencial. Chumbo trocado.

Foi um longo momento de espera e o ócio abre brechas para a insanidade. Por muitas vezes me peguei inspecionando com o olhar o carrinho alheio, cheia de pensamentos neuróticos como - dez quilos de arroz? Família grande! - ou - Jesus, o que vão fazer com tanto amaciante de roupas? E aquela caixa de hambúrguer que deixaram para trás? Está descongelando. Será que a administração terá a decência de descartar o produto? Ou vai voltar pro freezer? Coitado de quem comprar. Em contrapartida, não pude deixar de notar olhares entediados para o meu carrinho: - Olha essa menina, só compra porcaria!

Festejei em silêncio quando consegui alcançar a saída e vi os raios de sol novamente. Depois fiquei sabendo que é possível fazer compras pelo telefone e eles entregam os itens em casa. Santa comodidade! Mas enquanto eu teimar em escolher meus próprios tomates, vou ter que encarar essa loucura toda. Evitando, logicamente, dias perturbados como o de hoje.

Que assim seja.

Alguns absurdos

Depois de anos vivendo neste mundo insano, já não é tudo que me espanta. Porém, hoje li mais uma daquelas notícias que me fazem perder a fé na humanidade. “Homem morre em frente a Pronto Socorro, no centro de São Paulo e corpo fica na rua por quase quatro horas” – dizia a manchete. E a reportagem continuava: “Poderia ter sido só uma fatalidade: um homem se sente mal, cai e morre subitamente no meio do passeio público. Não fosse pelo fato de o corpo ter ficado quase quatro horas no mesmo local, numa rua movimentada no centro de São Paulo, a 20 passos de uma unidade básica de saúde (UBS) e a 40 passos de um pronto-socorro municipal.” Ele tinha 48 anos, trabalhava próximo ao hospital, sentiu-se mal e procurou ajuda. A UBS mais próxima não o atendeu, pois só faziam atendimentos consultas com hora marcada, mas fizeram a gentileza de indicar o hospital mais próximo – a uma quadra dali. Resultado? Ele não conseguiu chegar. E o restante vocês já sabem, ficou por quatros horas ali, coberto com um plástico, esperando que dessem ao seu corpo vazio o tratamento digno que não recebeu em vida.

Hoje essa manchete ocupava praticamente o mesmo espaço que outra, dizendo que o solidéu do Papa Bento havia voado (e eu nem sabia que o raio do chapeuzinho papal tinha esse nome). Agora me digam qual a relevância dessa informação? Outra comparação importante é que a morte do polvo Paul (vidente de araque) ocupou ontem 5 vezes mais espaço do que a nota de hoje. Gente, um polvo! Governos lamentam a morte do polvo, celebridades comentam através do twitter. Cogita-se construir um monumento em homenagem ao polvo. Gente, de novo: um polvo!

Fico me perguntando por que as pessoas se ocupam com banalidades, enquanto relutam em enxergar os absurdos que acontecem ao seu redor. Existem inúmeras respostas. A primeira que penso: dói menos. Lógico, dói muito menos pensar na morte do polvo ao invés de olhar para alguém – e alguém igual a você - que morre na rua e não recebe ajuda. Nem em vida, nem na morte. Poderia ser você. Ou melhor, poderia ser seu pai. Ou um amigo. Como você se sentiria ao saber que uma pessoa querida faleceu e foi tratado como animal? Aliás, não como animal, mas como uma montanha de lixo que atrapalha o passeio público. Eu me contorceria de dor. 

A segunda coisa é a falta de solidariedade e empatia para com o próximo. Seguindo o raciocínio de que poderia acontecer com qualquer um de nós, uma atitude minimamente sã seria importar-se com o fato e sei lá – buscar ajuda? Mas há coisas mais importantes para fazer na vida, não é? Afinal, não tenho nada a ver com aquele corpo no caminho (poxa, no meio do meu caminho!).

A parte que deixei para o final é que esta cena aconteceu em frente a uma escola e as crianças assistiram tudo das janelas das salas de aula. Vejam, é isso que estamos ensinando. Não importa o método de ensino e o que é dito pelos professores. Nossas atitudes ensinam mais. E nossas atitudes são vistas da janela. 

Não tenho uma solução, mas me reservo o direito da indignação.

Labirinto


"Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto,
Esse eterno levantar depois de cada queda,
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha,
Essa terrível coragem diante do grande medo,
E esse medo infantil de ter pequenas coragens." 
Vinícius de Moraes

Tem dias que a vida parece um imenso labirinto. Todos os caminhos parecem levar à um lugar melhor e ao mesmo tempo você sente que não consegue sair de onde está. A paisagem é a mesma e ninguém pode ter indicar a direção correta. Depois de tempos andando instintivamente, o cansaço é tão grande que te faz esquecer do porquê de querer continuar buscando o que quer que seja. Não há mais forças, você se sente incapaz.

Mas ainda há tantas coisas para mudar. Sempre algo para recomeçar, rever os caminhos, mudar de direção. Mas você sabe como? Eu tenho dificuldades.

Expectativas


 
“Não posso escolher como me sinto, mas posso escolher o que fazer a respeito."
William Shakespeare

Certas vezes prefiro pensar que as decepções não existem, pois assumir sua existência seria transferir a culpa de nossas mágoas para pessoas que muitas vezes nem sabem que nos magoaram. Acredito que as decepções não passam de um erro de expectativa de nossa parte, sendo esta diretamente proporcional à desilusão. Espere demais de algo ou alguém e certamente você irá se decepcionar. E a culpa é sua.


Esperar demais dos outros é retirar a felicidade das nossas mãos. Assim, ficamos muito vulneráveis à vontade alheia e as chances de nos magoarmos se torna grande. Enorme eu diria. E sabem por que? Ninguém ainda tem bola de cristal. Simples assim. Você queria que ele te ligasse, mas não ligou. Passou tempos esperando aquele pedido de casamento que não veio. Esperou a vida inteira para ouvir um “eu te amo” de alguém que nem sabia que era amado também. Sempre quis mais carinho e compreensão da família e nunca conseguiu. Adoraria receber um convite para um cineminha naquele dia tão difícil. Talvez um ombro amigo para chorar. Um simples elogio por ter feito um trabalho (ou um texto?) bom. Um “eu te entendo” quando estiver compartilhando algo que te aperta o coração. Um telefonema fora de hora só para dizer que sente sua falta. E aquele pedido de desculpas que nunca chegou? Tudo isso, não foi para te machucar. Foi expectativa demais. Você esperou demais. Esperou que lessem seu coração. Colocou seus momentos felizes nas mãos de outros que se quer sabem o que fazer com eles. Como te fazer feliz? Você sabe?

É difícil não esperar por grandes acontecimentos ou por singelos atos de afeto. Parte da emoção de viver está aí. A surpresa do acaso. No entanto, quem passa a vida esperando ser surpreendido, vive de ilusão e dificilmente concretiza suas expectativas. É uma maneira fria de enxergar a vida, mas é a realidade. Proteja-se com ela.

Diminua suas expectativas, dói menos. Se não conseguir, peça o que espera. Verbalize e seja ouvido. Peça aquele abraço, um pouco de carinho e a compreensão que tanto espera. Traga seus amigos para perto de si. Declare seu amor. Use a sutileza dos seus sentimentos. Se não funcionar, desista de quem não respeita seus desejos mais sinceros. Retome as rédeas da sua felicidade e a guie conforme sua conveniência. A felicidade é sua, não a deposite nos outros.

Ou ao menos tente.

Indulgência


Indulgência. Palavra difícil de entender. Provinda do latim, tem como significado “para ser gentil, porém durante séculos a teologia católica associou a indulgência com pecado. Era necessário obter indulgências e praticar boas obras, a fim de reparar todo mal cometido em terra para assim - finalmente - alcançar a vida eterna. Por conta dessa história toda, sempre considerei uma palavra fora de moda.

E agora ela ressurge, repaginada, mais simpática e pronta para ser usada. Os marqueteiros a adoram. Demorei muito tempo para entender o recado quando eles diziam que a nova onda era desenvolver produtos indulgentes. O que raios seria isso? Para entender é preciso buscar o sentido amplo da palavra e então esbarramos com uma busca natural pelo prazer e pela auto-satisfação. Nada mais é do ser gentil consigo mesmo. O grande “eu mereço”. A grosso modo e comercialmente falando, significa dê-me o supérfluo e abrirei mão do básico, ou seja, trocarei cinco balas por um bombom. Ou trocar aquele vinho trivial por um Moët & Chandon. Por que? Porque eu mereço. Afinal, o que você fez por você essa semana?

O que me fere é a falta de gentileza com a qual nos tratamos. Singularmente, como indivíduos. Vou deixar para outra hora a gentileza em sociedade. Falo agora do quanto nos privamos de cuidados, protelando nada mais do que a felicidade - ou os momentos felizes. Culturalmente, parece que para sermos gentis, precisamos antes nos fazer sofrer. Para poder comer aquela sobremesa deliciosa, temos antes ir à academia. Para tomar aquele vinho bom, só se for uma data especial. Paris, só depois de trabalhar o ano todo. Somente depois de todos os compromissos cumpridos à risca é que paramos e dizemos: Eu mereço! Trata-se de uma indulgência vazia, rica somente em bens materiais.

Nosso comprometimento todo é com o atendimento às exigências sociais. Trabalhar, produzir e cumprir protocolos exigidos por regras muitas vezes inatingíveis. Fica esquecido o flerte com a própria alma, o carinho para consigo mesmo. A atenção aos próprios sentimentos e dos que nos rodeiam. Afinal, é isso que merecemos todos os dias. É isso que levaremos desta vida. A memória dos que nos amaram e dos que amamos. Ninguém sai deste mundo levando uma garrafa de Moët & Chandon embaixo do braço.

Só para meninas


"Porque nada de exterior me acontece...
Mas,
Em mim, na minha alma,
Pressinto que vou ter um terremoto!"
Mário Quintana

Por que escrever?



Eu escrevo para expulsar sentimentos e pensamentos que gritam dentro de mim. E desenho com palavras as idéias que eu jamais conseguiria expressar com o som da minha voz.
É a espontaneidade que dirige a minha mão, esboçando os contornos da minha alma.
Dispo-me de pudores e fecho os ouvidos para vozes externas que limitam a explosão da criatividade.
É um singelo momento de plenitude, onde mente e coração se unem em busca de um prazer perdido na imensidão do meu ser.
E assim eu escrevo.

Um pouco de Clarice

No post "Eu e os best sellers", me defini como uma leitora à moda antiga por não imaginar meus escritores prediletos criando livros comerciais, com enredo e narrativa pré-definidos.

Em "Um sopro de vida" - Clarice Lispector fala em um parágrafo qual a sua motivação em escrever. E é genial. A genialidade dos grandes escritores está em colocar todo o seu sentimento em palavras, tocando intimamente o leitor, fazendo-o refletir e, muitas vezes, jamais esquecer o que foi lido. É cativado emocial e intelectualmente. Torna-se fiel ao escritor.

Segue o trecho referido acima:

"Eu escrevo para nada e para ninguém. Se alguém me ler será por conta própria e auto-risco. Eu não faço literatura: eu apenas vivo ao correr do tempo. O resultado fatal de eu viver é o ato de escrever."

Best Sellers?

Estou terminando de ler um livro comercial, daqueles que estão há anos na lista dos best sellers. Em geral, ser líder de vendas não é prerrogativa para ser bom. Confesso que tenho um certo preconceito em relação aos mais vendidos, pois não sei ao certo o que impulsiona a venda do número gigantesco de exemplares. Na verdade, imagino que seja uma combinação de fatores como - uma boa editora, um bom patrocinador, investimentos em publicidade, linguagem fácil, acessível e assuntos massificados ou polêmicos que incitam a curiosidade humana. O fato de estar em listas de revistas semanais também desperta a vontade de dar uma espiada. Foi o que aconteceu comigo.

Não vou me aventurar a fazer minha resenha crítica sobre o livro. Eu até faria, com prazer, mas isso seria muito entediante para meus ilustres seis leitores. Temo perdê-los. Além disso, penso que literatura é algo muito pessoal - o que é bom para mim pode ser péssimo para você e vice-versa.

Minha ansiedade é poder chegar na parte onde posso contar da minha dor de cotovelo. Inveja branca, como diz uma amiga. Antes preciso ambientá-los: o livro trata de uma história verídica, onde a autora passa por perrengues amorosos e se perde psicológica e espiritualmente. Então, a única solução que a atraiu foi sair por um ano, andando pelo mundo em busca de si mesma. Obviamente, não viveu de filantropia e brisa nesse período, visto que sua editora pagou adiantado pelo livro que ela poderia escrever com os relatos da sua busca interna.

Não quero pisotear na dor alheia e muito menos questionar os métodos de cura interna adotados. Não seria justo da minha parte - afinal, já dizia Caetano - “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Também não quero menosprezar o trabalho árduo do autor. Digamos que é puro despeito da minha parte. Mas vamos lá, o ponto é que fiquei aqui pensando com meus botões que, se eu estivesse com meu coração partido, vendo tudo em preto e branco e sem vínculos empregatícios e familiares - ou seja - na lama mesmo -  eu acharia um golpe de sorte da vida encontrar alguém que patrocinasse uma viagem de um ano pelo mundo com a única condição de eu contar minhas aventuras de forma escrita depois. Pensem - 365 dias fora da rotina, conhecendo pessoas, lugares, comidas, tradições e religiões diferentes - é história à beça. E boas histórias. As minhas seriam interessantíssimas, pois sou a distração em pessoa e sempre me envolvo em situações no mínimo - hilárias. Seria muito divertido. Fiquei bege de inveja só de imaginar.

Concluo que talvez seja esse o motivo de eu não gostar de livros comerciais. São encomendados, com roteiro pré-definido e pagos com antecedência. Perde-se a espontaneidade da literatura pela arte. Ofusca o brilho do artesanal, palavra após palavra e vira linguagem massificada. Assuntos previsíveis, enfeitados com seqüências ilógicas de figuras de linguagem em excesso. Não consigo imaginar meus autores favoritos escrevendo dessa forma.

Enfim, sou uma leitora à moda antiga.

É isso!

A solução

Por que as mulheres acham que um doce resolve tudo?
Tomara que aquele pote de brigadeiro que está morando na minha geladeira acabe logo.  Estou perdendo todas as batalhas contra ele. E sinto prazer com a derrota.
Vai entender.

Preguiça?

Hoje estou lutando contra uma moléstia que atinge a maioria dos brasileiros após um feriado prolongado: preguiça. Um dos pecados capitais instituídos pela igreja católica no século 17 com a intenção de controlar e educar seus fiéis contra os instintos humanos básicos. A listinha dos pecados foi feita bem antes disso, mas foi revisada várias vezes (afinal, o ser humano peca pacas, vindo até com pecado original de fábrica) e só então - no século 17 - é que foram definidos os pecados capitais conhecidos hoje.  Vejam - Pequenos Desatinos também é cultura!

Bem, instinto humano básico é o nome chique que se dá à famosa leseira que se sente depois de uma mini-férias de 4 dias. Bons dias vividos suavemente, dormindo até acordar e comendo quando vinha a fome. Tardes regadas com atividades leves e escolhidas ao acaso. Dormir na hora em que o sono aparecesse. Tudo lindo, até que – no dia seguinte – você está sentado novamente em frente ao computador, numa sala branca e fria, catatônico e com a sensação clara de que todos os seus neurônios foram congelados desde a última vez em que teve que pensar produtivamente. Agora, já não tem a menor idéia do que você fazia na última vez em que esteve sentado na cadeira de trabalho. Aliás, sente até que esta cadeira nunca foi sua. Foi, é? Sim, foi – responde seu superior imediato (chefe é muito feio de escrever, né?). E então, você é acordado do transe.

Todo preguiça deságua num mar de tédio, aonde é preciso nadar com braçadas generosas para conseguir vencer a maré e apoderar-se novamente do fiel trabalhador que habitava seu corpo até dias atrás. Demora, é martirizante. Você sente fome, sono, cansaço, raiva e por aí vai.

Isso me faz lembrar de uma frase do Mário Quintana: “A preguiça é a mãe do progresso. Se o homem não tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda.” E é isso, com insistência, uma hora a roda volta a girar.

Até para escrever foi difícil, foi de soquinho, sabe? Ficou péssimo. Culpa da preguiça.

Cai a chuva


Chovia torrencialmente e eu tinha uma listinha de aproximadamente 100 tarefas para cumprir em uma hora. Titubeei, mas resolvi encarar. Bem hoje que minhas pernas estão esmigalhadas pelo treino na academia. Ontem dei tudo de mim nos exercícios, mas eu mal imaginava que hoje eu correria a meia maratona do interior paulista.

Molhei muito e corri muito. Várias modalidades. Treino de explosão na corrida de curta distância (de um toldo de loja para outro), resistência (quando não havia lojas com toldo no quarteirão) e salto em distância (para vencer as enxurradas). Tudo isso sem equipamento adequado, obviamente. Eu calçava botas e vestia jeans.

Até pensei em comprar um guarda-chuva, uma capa ou uma sombrinha de oncinha (bem feminina), mas comprar essas coisas em dia de chuva é igual a comprar água no deserto – ou não tem, ou vale ouro. Lei da oferta e da procura. Capitalismo selvagem. O pessoal discorre bastante sobre isso nos dias atuais.

Eu particularmente odeio tomar chuva. Vejo várias fotos comerciais onde o pessoal toma chuva sorrindo, feliz da vida e com brilho nos olhos. Que coisa mais chata, gente! Pura propaganda enganosa. Você se molha toda e tem que seguir para o compromisso seguinte parecendo que saiu da máquina de lavar. Porque, vamos combinar, a gente nunca está andando na rua desprevenido, com pressa e pensa: Humm, bem que eu podia tomar uma banho de chuva agora, né? Ou então, você está quentinho dentro da sua casa, começa o temporal e você vai lá para fora para se molhar? Nunca vi isso. Por isso que eu sempre digo que ainda não vi de tudo nessa vida.

O importante é que entre ensopados e respingados salvaram-se todos. Agora vou encarar o restante do dia de trabalho, com as meias molhadas e a calça encharcada até os joelhos. E a vida continua.

Até mais!

Sonho de consumo

Um fashion disaster pra chamar de meu....

Como sabem, sou aquela que gosta de fazer algumas das próprias roupas. Pois bem, hobby ingrato esse, nem sempre dá certo. Aliás...deixa pra lá.

Hoje por exemplo. Estava eu, toda serelepe, empolgadíssima no meu novo (ou já nem tão novo assim) projeto. Um corselet chiquérrimo (homens, procurem no google). Nível 3 da costura. Dei tudo de mim. Costura aqui, costura dali, vira pra um lado, vira pro outro. Concentradíssima e tentando difarçar minha ansiedade pois hoje seria o meu grande dia: aprenderia a pregar um zíper. A finalização da peça. O ápice da aula. O debut de toda aprendiz de costura. Quanta emoção!

Estava quase chegando lá quando minha professora me manda para o ferro de passar, vincar as costuras. Tarefa fácil, fui em direção à tábua de passar, com um ar blasé, cheia de si, cabeça erguida e nariz empinado. Moleza. Começo a vincar, não funciona. Olho na tomada, ferro desligado. Erro primário. Ligo e continuo o trabalho. Uma belezinha. Morro de orgulho de mim mesma. Até que...

Ai, não! Não pode ser! Não, não, não! Reluto a acreditar no que eu estava vendo. Queimei a peça. Não pode ser. Olho de novo. Putz, queimei mesmo. Olho para os lados para checar se fui flagrada. Ninguém. Olho de novo para a peça e não acredito. O cetim virou plástico. Fico ali, uns cinco minutos, parada, com olhar de resignação. Como resolver isso? Penso, penso e nada. Visualizo Coco Chanel direto do além com um sorriso de escárnio nos lábios, enquanto fuma um cigarro e me olha com desdém. Sem opção, resolvo me entregar. Vou até minha professora, com cara de criança que acabou de tirar o dedo da tomada e com os olhos marejados, ergo humildemente a peça em direção a ela. Minutos de silêncio. Olhares trocados. Cara de putz. Olho para minhas colegas, mais olhares de putz. Faço cara de putz também, fazer o que né? 30 anos e ainda sou traída por um ferro de passar.

Tudo bem, me restou desmanchar parte da peça, enquanto ouvia palavras de motivação e consolo das colegas. Até pensei em postar uma foto ilustrativa aqui, mas meu pudor me impediu. Mas tenho certeza que vocês se divertiriam horrores.

Foi difícil, mas tenho certeza que sobreviverei a mais essa! Oscar de la Renta e Stella McCartney que me aguardem. Hã!

Should I stay? Or...

E de repente 30



“A mulher de trinta anos pode fazer-se jovem, representar todos os papéis, até tornar-se mais bela com uma infelicidade. Entre ela e uma jovem há a incomensurável diferença entre o previsto e o imprevisto, a força e a fraqueza. Armada de um saber obtido quase sempre ao preço de infelicidades, a mulher de trinta anos ao entregar-se, parece dar mais do que ela mesma; ao passo que a jovem, ignorante e crédula, nada sabendo, nada pode comparar nem apreciar” (Trecho de “A mulher de 30 anos - Honoré de Balzac)


Enfim, tornei-me uma balzaquiana. Fiz trinta anos. 30 para ser mais impactante. Quando se fala em idade, números dizem mais que palavras. Nesse momento é inevitável fazer uma pausa para reflexão. E me lembro daquela menina que se perguntava: O que serei quando crescer?

Por isso é impossível não fazer uma parada no meio da estrada, reformular perguntas e buscar uma óptica diferente. Você não olha para trás como fazem os mais velhos e tão pouco olha para frente como fazem os muito jovens. Olha para os lados. É o mirante dos 30 anos.

Dê lá vê-se uma mulher no meio da estrada. Realizou ao menos metade das missões herdadas no berço: nascer, crescer, estudar, casar, procriar, trabalhar e morrer. Não necessariamente nesta ordem. A visão deste mirante é inicialmente assustadora, mas logo vem a plenitude da contemplação. Tem gosto de liberdade.

O adolescente vive numa gruta escura. Atormentado por todos os lados com mil exigências - estudar, escolher uma profissão, ler livros que não gosta. Praticar esportes, comer saudavelmente e sem ver um grande sentido nisso. Conforma-se semanalmente com uma diversão limitada, com filas imensas, em lugares escuros, músicas repetitivas e ensurdecedoras a ecoar por todos os cantos. Não que ele esteja errado, mas trata-se de um ambiente hostil para alguém com 30. Quando se é um jovem-adolescente sabe-se muito pouco sobre si, sobre sua essência. Eu não voltaria para essa fase nem sob tortura. Aos 30, um bom papo em um lugar agradável vale mais do que mil baladas.

Com 30 você sabe algumas coisas sobre a vida e tem uma leve noção do que acontecerá dali em diante. Por exemplo, você já sabe que não é um gênio da matemática, sabe não será a primeira bailarina da melhor compania de ballet (seja ela qual for). Não será uma revelação da música e muito menos uma campeã na ginástica olímpica. A ansiedade é minimizada pelas expectativas.

30 anos. Você está relativamente madura e releva muita coisa. Evita brigas que só desgastariam relações. Pondera. Há quem diga que nesta fase trocamos a paixão por ponderação. Sem grandes rompantes. Conseguimos pensar (pouco, mas pensamos) antes de agir. Obviamente, para toda regra há exceções. Sugiro fugir das exceções. Uma briga com uma mulher de 30 é muito mais difícil. Tente argumentar com ela e ouvirá um monólogo interminável. Ela é exigente. Persistente. Princípios enraizados.

Sensibilidade. Esta fica muito mais aguçada. Sabe aquele sexto sentido feminino? Funciona como nunca. Sabemos diferenciar com leveza aquelas pessoas com energia ruim e as afastamos à francesa. Com classe. Tem-se muito pouco tempo a perder e só queremos pessoas realmente grandes ao nosso lado. Grandes no sentido íntimo da palavra. Pessoas com espírito pleno, que nos completará, seja na amizade ou no amor.

Liberdade. Aos 30 você tem o poder de ir e vir sem dar grandes satisfações. Ouve as músicas que gosta, lê os livros que escolheu, viaja para onde tem vontade. Pratica esportes e alimenta-se bem porque quer ter qualidade de vida até os 90 anos.

Tenta diminuir os impactos físicos. Você sabe muito bem o estrago que uma semana longe da academia pode fazer seu corpo. E o quanto aquela semana de TPM regada à chocolates, doces e afins vai refletir diretamente no diâmetro do seu quadril. Mas entrega-se, pois pequenos momentos de prazer são impagáveis. Aprende na marra a respeitar as horas de sono, pois sabe o quão sofrível será o dia seguinte no trabalho, onde todos perguntarão porque você está parecendo um panda com tantas olheiras. O corpo precisa de cuidados e é difícil aceitá-los, pois até ontem você tinha um metabolismo de adolescente. É, muita coisa muda.

E olhando para frente, muita coisa está por vir. Constantes transformações. Muitos desejos a realizar. Viajar o mundo. Paris! Aprender a dançar lindamente, por diversão. Escrever as pequenas impressões sobre a vida. Aprender a fotografar, arte pela arte. Conhecer novas pessoas, com conteúdo. Ler todos os livros que você queria ler. Muitos deles enfileram-se na estante. Arriscar-se, pular de asa delta. Buscar desafios, correr a maratona de Nova York ou um novo emprego. Não há limites para a mulher de 30. E ela está cheia de coragem. Entende a brevidade da vida.

Um brinde à Mulher de Balzac!

Liberdade

Escrevi este texto em 2006, por volta dos 27 anos. Os anos passaram, mas ele ainda fala muito sobre mim. Vamos lá?

Chega de razão, quero emoção! Quero tirar os pés do chão, elevar os pensamentos às nuvens, jogar meu coração nas estrelas. Não quero caminhos já percorridos, quero trilhar os meus. Sem lógicas, nada de retidão. Quero coordenadas curvilíenas, cilíndricas. Esféricas se for preciso! Falando nisso, não quero mais a engenharia! Quero a pintura, a música, a moda, a dança e a arte. Chega de roteiros complexos. Quero reinventar minha vida, com mais cor, luz, brilho e ação. Não quero escrever críticas ou crônicas. Também não quero silenciar, mas quero colocar nas palavras a amplitude da minha alma. Quero um conto de fadas.
Quero paixão! E se for em vão, que seja pra recordar. E falando em recordar, não quero mais o passado, nem mesmo escrever o futuro. Quero o agora, sem projetos. Deixar o vento me levar, pular no horizonte, buscar o calor do sol ou o mistério do luar. Tanto faz!
Chega de exatidão, quero ser imprecisa. Quero errar em todos os cálculos. Quero ser irreal, impalpável. Abstrata! Chega de conceitos, moldes e padrões. Quero a leveza do inusitado, a magia do improviso. Quero desacorrentar a alma, quebrar todos os paradigmas. É época de redenção.
Não quero a terra, quero fogo e ar. Ou então o mar. Chega de mesquinhez, quero grandeza - de espírito. Não quero beleza, quero conteúdo. Não quero olhar pra mim, chega de mim. Não quero ser minha. Quero pertencer aos outros, ao mundo - ao infinito.
Não quero ser adulta. Nem criança! Quero transitar livremente pelas idades. Quero romper as barreiras do tempo, quebrar meu relógio. Quero liberdade! Quero o meu tempo! Também não quero ser forte. Quero ser frágil, como uma flor. Um girassol talvez.
 

Todo mundo tem um lobo por dentro



Nada mais verdadeira do que a frase de “Petulante” de Oswaldo Montenego. "Todo mundo tem um lobo por dentro". O animal, a fera a qual tentamos controlar. Deixamos ele quietinho, muito bem acalentado dentro de nós. Horas ele fica lá, confortável, cheio de espaço em nosso enorme coração generoso. Em outros momentos terríveis, ele fica apertado, quase sem ar, querendo uivar e ferir, mas ainda consegue sobreviver em ambientes inóspitos. E só consegue porque conversamos baixinho, dizendo que está tudo bem ou que não é o momento. Controle-se, por favor! Não nos fará bem ferir as pessoas. Repetimos e repetimos como se fosse uma canção de ninar. Acalme-se. Não queremos machucar ninguém. Principalmente as pessoas que amamos. Temos que nos controlar. Não é certo.

E como é difícil esse exercício de controlar nosso lobo interno. Requer prática. Exige disciplina e acima de tudo, pede por abnegação. Sofrer internamente em detrimento ao que nos machuca. Esquecer, superar. É um exercício diário e repetitivo.

É um exercício falível. Um dia seu coração fica tão apertado e pequeno que quer começar a pulsar rápido. E cada vez mais rápido. Parece que vai explodir. Quer sair pela garganta. Suas mãos começam a tremer. E o lobo, preso lá dentro, sente-se sufocado, sem respirar. Sente-se aflito, precisa escapar. É por defesa. Um instinto. Sobreviver é a única coisa que enxerga. Ele quer sair e não há nada que o impeça.

E lá vai ele. Arrebenta as portas do coração e inebria sua mente. Sem pensar, típico de sua natureza, sai ferozmente em sua defesa. “E como fere e faz barulho um bicho que se machucou, destruindo com palavras quem o incomodou”. Não há o que o faça parar, pois ele não pensa. Em lapsos de sobriedade tentamos conversar. Cuidado, você está exagerando! Mas ele não te ouve. Está ocupado demais. Quer extravasar sua mágoa por todas as vezes em que o cativeiro o deixou desconfortável. Ele se sente forte, alimentado pela raiva contida por tanto tempo. Não importa de quem foi a culpa. Ele não sabe discernir. De novo, ele não pensa.

Depois acaba. Ele volta pra dentro, cheio de ferimentos de guerra. Você o trata como uma criança que brigou na escola. Diz para nunca mais fazer isso. Veja, agora todos ao redor estão sangrando, inclusive você. E não há nada a fazer, a não ser tratar as feridas. Será que elas cicatrizam?